Educar o corpo e a sexualidade na escola: problematizando discursos e práticas à luz do pensamento de Foucault
Resumo
O objetivo principal desta reflexão consiste em problematizar o conceito moderno de biopoder subjacente às políticas educativas voltadas para a sexualidade dos adolescentes e jovens enquanto dispositivo de vigilância dos corpos dos indivíduos e da população. Esta perspetiva de análise pretende confrontar os discursos engendrados pelos professores no âmbito da educação sexual escolar com aqueles que são produzidos por outras figuras convidadas pela escola – médicos, enfermeiros, psicólogos – e que partem de outras perspetivas e formulações pautadas essencialmente por uma linguagem biomédica, raramente contestada dada a autoridade da ciência. A produção destes discursos em gramáticas plurais, por vezes conflituantes, exerce uma grande influencia sobre as atuais políticas públicas voltadas para a juventude, levando uns e outros a assumir responsabilidades políticas e institucionais de grande alcance sobre a saúde da população.
Em ambos os casos, o olhar intensivo e extensivo que incide sobre a sexualidade e o corpo juvenil toma-se mais meticuloso tanto pelo desenvolvimento de conhecimentos, como pelo reforço das fiscalizações e das resistências, concebendo um discurso eminentemente preventivo sobre os relacionamentos afetivo-sexuais, a redução de comportamentos sexuais de risco, a prevenção das infeções sexualmente transmissíveis e de gravidezes não desejadas; tudo isto através da delimitação dos saberes que se julgam pertinentes e das práticas tidas como adequadas ou legítimas. A proliferação dos discursos sobre a sexualidade, e a sua difusão em meio escolar, fazem com que as fronteiras entre o íntimo e o público sejam hoje mais complexas e difíceis de gerir, na medida em que a sexualidade vem tocar de uma maneira mais sensível e mais existencial a identidade e a intimidade de cada um. No que diz respeito à autoconstrução do indivíduo, o discurso que recai sobre "o governo de si" passa muitas vezes por uma "revelação de si", entendida pelos jovens como mais opressora do que libertadora.
Palavras-Chave: Biopoder; Sexualidade; Educação Sexual Escolar; Íntimo; Público