Sexo e verdade em La volonté de savoir de Foucault
Resumo
Numa entrevista concedida em 1977, Foucault revela que o título inicialmente concebido para o primeiro volume de Histoire de la sexualité seria “Sexo e Verdade”, afirmando que, na verdade, era esse o seu problema.
Possível título não inteiramente surpreendente. Com efeito, uma das teses principais de La volonté de savoir é que na scientia sexualis ocidental (da confissão cristã à psicanálise) se espera que a verdade do sexo diga, simultaneamente, a verdade mais secreta e decisiva de nós próprios. Todavia, alerta Foucault, essa vontade de saber a verdade do sexo encontra-se presa no ardil do dispositivo de sexualidade que, ao incitar o nosso desejo em discurso, “nos faz acreditar que se trata da nossa «libertação»”, libertação de um poder ilusório que seria essencialmente repressivo.
Será esta derradeira frase de Le volonté de savoir a última palavra de Foucault sobre a verdade do sexo, nesse livro, ou poderemos tentar outras interpretações? E não será o próprio gesto genealógico de desmascaramento da verdade do sexo no interior do dispositivo da sexualidade uma forma de verdade? É esse o problema que, na verdade, gostaríamos de explorar em La volonté de savoir.